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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O homem de Nazaré e os outros homens

Mauro Santayana

As escavações de Nazaré, ao revelarem uma casa da época de Cristo – que pode ter sido a da família de Jesus – mostram a pobreza daquele tempo, em que os romanos afirmavam seu império sobre a Palestina, com seus soldados e Herodes. Somos tentados, ao examinar as circunstâncias históricas, a definir Jesus como um homem político, mas, para isso, temos que escoimar a expressão, tão maculada ela se encontra. A política, e essa reflexão nos serve nestas horas brasileiras, como servia em Jerusalém, é a mais importante das ações humanas, e todos nós devemos praticá-la, como Cristo a praticou contra o Império.

Vivendo em comunidade, tudo o que fazemos, e tudo o que deixamos de fazer, interfere no todo. Na política, como na física, podemos recorrer à famosa teoria do caos, de Edward Lorenz, e do efeito borboleta (dela intuído, embora de forma lateral). Assim como o bater de asas de uma borboleta, no Pacífico, pode determinar, pela ampliação das consequências físicas, o derretimento de uma geleira na Antártica, o ato de um cidadão qualquer pode desencadear processo político que venha a mudar o mundo. Seu gesto pode repetir-se, crescer ao ser emulado, mudar a História.

Cristo foi o jovem que saiu de Nazaré, esteve em algum lugar que os evangelhos não registram, nem ele revelou a seus discípulos, até que, homem feito, foi buscar, nas águas do rio, o batismo de João Batista. O pregador precisava de seu concurso, e ele o substituiu quando uma princesa volúvel recebeu de presente a cabeça do profeta. Sua ação foi política: como João, recusava o sistema. Contra ele, pregava – no meio do povo – a revolução, imediata, da igualdade e da justiça. Qualquer que seja a interpretação de sua presença e dimensão histórica, ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como político.. Isso não lhe exclui, nem mesmo reduz, a transcendência. A transcendência se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento de todos os seres humanos. Todos os que o negam, o confirmam, em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o confirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores.


O Natal é a festa do nascimento de Jesus, porque é a festa do nascimento de todos nós. De acordo com alguns teólogos, nós nascemos com Cristo, porque só depois dele entendemos a vida como um compromisso com o amor. A mensagem de Cristo é mais poderosa do que as instituições que reivindicam o seu nome; é também mais poderosa do que a fé que as seitas recolhem e administram, nos negócios do mundo. Ela é a mensagem do Filho do Homem, para os homens; é a mensagem de um para o outro, para os outros. Nisso, os evangelhos podem ser traduzidos em uma frase: nós somos seres que só podemos nos entender como irmãos na igualdade: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas.

Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros. Para os humanistas e agnósticos que vivem a sua mensagem, embora possam duvidar da saga que lhe atribuem, Cristo é, do nascimento à morte; da gruta de Belém ao Calvário; da estrela radiosa e brilhante, que o saúda ao nascer, às trevas da agonia, uma resposta do homem à sua própria necessidade.

Como qualquer homem, na hora da morte, ele não tinha ângulo em que agarrar-se, estava agônico, de acordo com o léxico grego. Assim, como qualquer homem, recorreu a Deus, perguntando-lhe porque o abandonara. No reconhecimento de sua fragilidade humana, estava a grandeza de sua transcendência. Por isso, São Francisco de Assis, de inegável existência histórica, é o santo que dele mais se aproxima, ao despir-se e batizar-se com o vento, e reafirmar o amor, ao retomar, com a jovem Clara, o caminho de Cristo na encosta de Assis e na planície umbra, em cujo solo reabriu suas trilhas palestinas, e fundou, com os pobres, comunidade que incluía leprosos e miseráveis.

O Natal – para aqueles que não o celebramos como festa profana, festa do consumo – é uma reverência ao Mistério, que fez de um homem frágil, que não conseguia sozinho – e este é outro sinal da transcendência – carregar a cruz, e aceitou que um certo Simão, cirineu, o ajudasse a subir a escalada do Calvário. Um cirineu qualquer, que vinha do campo, com seus braços e seu ombro, conforme o belo Evangelho de Lucas

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